quarta-feira, 24 de novembro de 2010

"Nós" versus "Os Outros" ?

É dispensável ilustrarmos as manifestações análogas ao nazismo e neonazismos que assistimos no Brasil na reta final e logo após o término das eleições, disparados tendo como alvo principal o povo nordestino.
Isso extrapola em muito, mas em muito, questões próprias da campanha. E quem não atentar corre o risco de deixar esta quimera crescer para 2012, 2014....

Debatendo maduramente, é óbvio que Serra não iria fazer uma conclamação: "paulistas anti-nordestinos, uni-vos!". Pra quê? Ele usou foi a tática da ditadura, "Brasil, ame-o ou deixe-o" ao inferir que criticar a gestão PSDB é criticar São Paulo.

O que aconteceu em sua campanha foi surfar na onda destes setores, bem como surfou com a TFP, com monarquistas, integralistas, "Tea Party's versão brasileira", xenofobias paulistas, sulistas, do agronegócio, etc. Até o FHC lamentou.

A grande pergunta é: por que estes setores apoiaram o Serra? Eles não "começaram" na campanha, eles já chegaram nela, e tiveram o caminho liberado totalmente para assumir a ponta quando se via que a Dilma ia ganhar no primeiro turno, aí se transformou num "tudo ou nada".

Por que é inimaginável que aquela estudante que começara no Twitter votaria na Dilma?

Por que Soninha Hernandes - ex-esquerda- sempre postava lá "tire o percentual de MG e SP pra ver o qto o Brasil cresceu..."?

Tem a ver com a questão de que não importa se a integração regional se dê com um crescimento da paridade das regiões mais pobres - diga-se de passagem, o crescimento do Nordeste é relativamente auspicioso.

A questão é que isso faz essa categoria se sentir diminuida. É assim em todo o mundo. Regiões mais abastadas não gostam muito de ver equiparação. Consideram que isso é "levantar muros", "jogar um contra o outro". Querem uma "paz" que é uma acomodação com a injustiça. Aí tem os apelos para a "ordem", "paz", "harmonia".

E com todas as contradições, eles enxergam no PT essa imagem, e digo que numa análise realista é até superestimada - de ter prioridade com os mais pobres.

Questões assim a parte, a história mostra que toda integração nacional externa de peso veio após uma integração nacional interna, e que muitas vezes isso levantou conflitos entre aqueles que queriam manter o status quo.

É claro que não dá pra ficar em cima do muro. Alguém tem que tomar uma posição, e dizer se quer mais igualdade regional e individual de renda, oportunidades, ativos, etc. Quem não quer, sempre vai dizer que promover isso é instigar o ódio, a divisão, por que eles odeiam isso. Então tem que peitar.

Errado não é odiar a injustiça, mas camuflar o apego à injustiça dizendo que se deve manter como está, a "paz, ordem e harmonia". Isso é tão velho como a história de todas civilizações. E aqui, podia ser camuflado enqto gente do sul e sudeste produziam artificialmente um sentimento de "piedade" pelos nordestinos, ao ler Raquel de Queiroz depois da janta, não se exigindo deles nada além de um quilo de comida não perecível no Natal pra descargo de consciência.

Assim a mão-de-obra que fazia o que não queríamos fazer não encarecia.
Porque desde o menor até o maior,
todos são gananciosos;
e desde o profeta até o sacerdote,
todos usam a falsidade.
Eles cuidam da ferida do meu povo supercialmente,
dizendo 'paz, paz', quando não há paz.
Jeremias 6.13-14

Alguns setores lamentam dizendo que isso parte de discursos do presidente Lula. Que é ele que insufla os pobres contra os ricos, nas suas falas acerca das “elites”, e assim, gera uma reação.

Mas até que ponto isso não é uma reação também ao típico discurso sistemático que é dirigido contra ele? FHC até os anos 80 também falava das "elites". Claudio Lembro, do DEM, sempre tem apontado o dedo.

Por exemplo, outro dia, estava conversando com um ruralista se queixando do tratamento dispensado a eles, etc. Eu apontei que o plano safra hoje para o grande agronegócio é de 84 bilhões. Ele falou que muito dinheiro vai para a agricultura familiar, que ele acha que isso é discriminação, divisão, etc. Eu apontei que para ela é 16 bilhões, mostrei os dados do censo 2006 que mostra que são muito mais agricultores e propriedades, apesar de uma área menor. Então, se havia favorecimento, havia para os de larga escala. Ele foi levando a fala dele a um ponto que mostrou que o que o desagradava era a diferenciação; ou seja, se fosse tudo igual, para os de menor poder iria menos e não se mostraria a desigualdade, ficaria camuflada. O que o irritava era deixá-la explícita.

Não acho que se deve cair no jogo dos extremistas, no essencialismo e dizendo que “os brancos” são contra os pretos, “os paulistas” são contra os nordestinos. Pois é isso o que querem, que toda a identidade do grupo maior seja identificada com a postura deles, de tal forma que os que não compartilhem sejam “os traidores”.
Mas o que o presidente fala não é neste sentido. É de dar nome aos bois a quem se opõe a qualquer política que parta do princípio de que houvera uma injustiça histórica a ser reparada.

Desde os tempos de sindicato, ele trabalhava no sentido de desconstruir os apelos retóricos de que os trabalhadores deveriam odiar os patrões. Acho que muitos hoje têm tentado imputar este estereótipo nele justamente para que se identifique políticas afirmativas com isto: insuflar ódio.
O Brasil cresceu para todos, não para poucos. E todos se beneficiam quando mais mulheres, negros, nordestinos, conseguem avançar. No ministério que eu trabalho mesmo, muito das políticas ao longo destes anos tiveram o sul como o maior beneficiário, grande parte mérito deles por estarem mais organizados para se apropriar, embora isto também tenha causas estruturais históricas que ultrapassam o controle do indivíduo comum.

Ele realmente ataca “as elites”. Mas não são essas as que orquestram sistematicamente contra este projeto, reverberando na imprensa, através de seus articulistas, etc.? A elite no caso não é necessariamente todos os que estão em posição melhor, nem os mais dedicados a algo; mas aqueles que se arvoraram no status quo e se organizam contra tudo o que mexa com ele. É o que Raymundo Faoro apontou tecnicamente em “Os Donos do Poder”.

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