Uma grande decepção; é o que posso exprimir acerca de uma expectativa que nutria quanto às discussões preliminares na campanha para a sucessão presidencial. E o nome que protagoniza este sentimento é o da candidata Marina Silva, acrescentando a ele profunda tristeza. Em um debate promovido pela Band, o candidato Plínio de Arruda Sampaio disparou uma tirada sarcástica comparando-a ao personagem “Pollyana”. Pollyana é uma jovem órfã, personagem do livro homônimo de Eleanor H. Porter, auto-complacente, que procura ver sempre o “lado bom” e mascara as problemáticas das situações, pintando um cenário cor-de-rosa para maquiar os problemas. É uma caricatura do “Cândido”, do livro “Cândido, ou otimismo” do Voltaire.E assim Marina Silva conduz suas colocações e observações. Para todos os problemas que ela aborda ela simplesmente vai evitar “fazer o errado, e vou fazer o certo”, e tudo andará bem porque as pessoas se darão as mãos. Ela nunca diz exatamente o que de forma alguma o governo Lula, e mais ainda, o governo FHC fez de errado que ela não fará. Para ela, não há problemas de Justiça Ambiental, todas as empresas simplesmente farão gerências internas e assim não externalizarão seus custos ambientais.
Joga com seu passado, que é comovente, mas sua atuação na campanha foge dele; ninguém a vê reunida com a base em que ela se formou, mas com platéias chiques de financiadores de campanha. Sim, nada contra reunir-se com empresários, grandes empresários; são atores presentes nas situações de riscos ambientais que devem assumir suas responsabilidades e apresentar como vêem as questões, chamados a apresentar suas propostas. Mas não a vemos discutir ou ouvir mais os extrativistas, indígenas, quilombolas, geraizeiros, ribeirinhos, quebradeiras-de-côco, movimentos e entidades não-governamentais que lutam contra a injustiça ambiental.
Se ela ao invés de usar seu passado para jogos de constrangimento, ela poderia aproveitar essa força para algo imprescindível: colocar estes atores juntos, os agentes financeiros, empresariais e os segmentos sociais diversos, para sentar e ouvirem-se, e ver aonde se pode avançar em impasses.
Fracassa; ela aceita o canto de sereia daqueles que querem esvaziar totalmente o discurso dela, para não incomodá-los, e domesticá-la, fazê-la se tornar meramente uma incógnita de fala emotiva, mas de conteúdo minguado, uma peça decorativa. Ou fazer o que fizeram com Gabeira, a tornarem cínica, sem ideais e refém de uma elite esnobe e distante de quem construiu sua carreira política. E quando ela sair do cenário de destaque, ela irá olhar para o lado e averiguar onde eles estão...Nutria a expectativa de que ela pudesse pelo menos fazer o que Cristóvam Buarque fizera nas últimas eleições. Ele repetia o mantra “educação, educação”, sem entrar nos meandros do funcionamento do sistema ou apresentar algo substancial, com concretudes propositivas, mas algo vago e como uma bolha. Falava vagamente da Coréia do Sul sem mencionar sua histórica Reforma Agrária. Mas conseguia reportar o tema para o centro do debate, e todos, todos os presidenciáveis tiveram que colocar a educação de forma explícita e destacada em seus discursos, proposições, defesas, e ela passou a ser pauta protagonista, dentre outras, o que de outra forma não seria. Tinha esperança de que Marina fizesse o mesmo com a questão da Justiça Ambiental e Economia Ecológica. Até mesmo de forma mais qualificada. Frustração.
Frustração.
Frustração.
Resta agora algo inusitado: a partir de suas falas incisivas, claras, auspiciosas, e pelo carisma que consegue emanar, Plínio de Arruda, com o destaque que vem conseguindo ter e a atenção inesperada, possa introduzir o tema da Desigualdade, crime hediondo da nação, que não interessa à grande mídia tratar.
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