sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Sobre o Pré-Sal, Petrobrás e Gestão: Recordar é Viver
Enxergamos que realmente uma inspiração no modelo norueguês, contextualizando-o, é o caminho, sendo oportuno aí resgatar a perspectiva do Fundo Soberano, com as divisas advindas desta exploração, com estratégias de investimento a médio prazo.
Nesse ponto, vemos invocados os mesmo velhos chavões sobre privatização, eficiência, mercado e preços, tentando ressuscitar o período dos anos 90 em que faziam sentido. Nisto, muito oportuno retomarmos algumas análises feitas pelo "Informadordeopiniao".
"O sapo que os 'formadores de opinião' estão engolindo"
"Grade de Investimento"
"Novamente: para sepultar os chavões dos anos 90"
"Privataria Energética - a herança permanece"
"Capitalismo de Estado - a sepultura dos chavões dos anos 90 "
"Primórdios dos "Gargalos"
"A falácia da eficiência da privataria"
"Uma breve história de nossas 'travas econômicas' "
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quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Marina Silva, eleições

O Partido dos Trabalhadores não tem direito de se queixar da decisão de Marina Silva de deixar a legenda. Efetivamente, a questão ambiental no Partido se tornara marginal, juntamente com outras bandeiras históricas como a Reforma Agrária. Ele passa algo como uma mensagem aos militantes e eleitores históricos, de que tais bandeiras serviram para canalisar o trabalho e apoio fiel e engajado, mas após o poder presidencial, tornou-se dispensável. Era um relacionamento meramente utilitarista?...
Não vamos aqui pisar em cima do histórico, e da luta atual de muitos políticos e militantes em prol dessas questões, que merecem ser honradas. E nem negar que, nas legendas mais representativas em termos de candidatos eleitos, não conseguimos encontrar também em nenhuma outra tal comprometimento. Mas não podemos negar que não fazem parte da agenda de frente do partido.
A imprensa ajuda. Ela pauta a agenda, e o PT segue. O Governo Lula a segue. A grande mídia, sem dúvida, é um poder de fato, chegando a dividir com o executivo, legislativo e judiciário; com seus interesses corporativos. A uma lamentação hipócrita pela saída de Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente, ela deu destaque à nomeação de Carlos Minc, apontando nele alguém mais pragmático, disposto a "compreender" o interesse dos grandes setores empresariais corporativos na disputa pelo acesso ao meio ambiente e seus benefícios com outros setores da população, e com a própria natureza e suas demandas intrínsecas.
Destacado era a "agilidade nas concessões de licença", o que na prática significaria vistas grossas. O governo, pelo seu lado, enxergara nele um chapa-branca "glamouroso" e exótico, que com jogo de cena desviaria a atenção para o tratorasso anti-ambiental.
Mas logo, ele passou a criar "problemas", a dar trabalho. Os chavões idiotas quanto "Minc está sendo ideológico, eu (Dilma, Stephanes, Lobão) sou técnico(sic)" sempre pronto a ser sacado, foi salpicado como sal na salada novamente. Eles me lembram quando congressistas tentam passar projetos exdrúxulos, que sempre se saem com "este projeto vai servir para regulamentar a conjuntura cujos marcos não estavam claros"...
Marina Silva, desde o tempo de sua saída, na verdade experimenta uma reviravolta em sua atuação política. Era acusada, internamente no ministério, e externamente nos movimentos sócioambientais, de ter dado uma guinada para algo autocomplacente, tímido, sem decisão. E arrancou sua coragem de mulher lutadora do âmago do coração e tomara essas decisões difíceis, e tem se destacado, sim, pela sua fibra na sua atuação no Senado.
A que se comentar que o PV também não é um referencial nítido de comprometimento pela Justiça Ambiental. Gabeira nele se tornara um esnobe blasée, com discursos caricatos e um programa político insosso, repetindo chavões da ala da classe média-alta carioca mais cínica e alienada. O Partido Verde tivera uma agenda de apoio incondicional ao governo FCH, que não estivera em nada à frente do PT na agenda ambiental, pelo contrário, comprava discursos pseudointernacionalistas quanto à Amazônia, e era fechado ante a discussão da Justiça Ambiental. O PV se mostra afastado da agenda política da Justiça Ambiental, e também renegara sua análise ecopolítica que marcara sua criação. Pessoas que se aventuram na carreira política, buscando algo "light", que não cocem as sensibilidades de amigos e conhecidos mais à direita e mais à esquerda, escolhem o PV.
Se for a opção de Marina, é uma opção de alto risco, e ela lidará com grandes desafios internos. Mas será muito, muito bem-vinda a candidatura dela à presidência, para problematizar a agenda ecossocial na pauta das eleições. Ela deve bater nessa tecla, para, sobretudo, ela entranhar na discussão pública, tal qual Cristóvão Buarque o fizera com o tema da educação. Pena que essa pressão esmorecera um ano após a reeleição de Lula, de forma que o governo não se viu mais acuado e não sentira no termômetro eleitoral essa preocupação, e assim, parou de pautá-la na linha de frente. Marina Silva teria a oportunidade de estabelecer uma discussão com mais ênfase e assim, trazer essa preocupação para o mesmo "termômetro".
Aquele que determina os assuntos da política, dirige o país, porque a definição das alternativas significa a escolha dos conflitos e a escolha dos conflitos aloca poder.Schattschneider
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sexta-feira, 3 de julho de 2009
" Moisés pode ter existido, sugere pesquisa arqueológica" - um exame do sensacionalismo na divulgação de pesquisas sobre temas religiosos
Assim também com a área da arqueologia. De anúncios bombásticos de "descobertas" da Arca de Noé, até outros discursos num outro extremo, sobre "provas" da arqueologia de que toda a história de Israel do Antigo Testamento é uma invenção de uma aristocracia para subjugar o povo pobre coitado com a religião (segundo um programa filosófico sociologicamente estabelecido desde o século XIX, dotado de premissas que já determinam resultados). Cada extremo com suas retóricas intimidadoras. Vou explorar um estudo de caso da questão, com uma simples abordagem de uma matéria que circula amplamente.
http://g1.globo.com/Noticias/0,,MUL418821-9982,00.html
A matéria tem um título comedido: “Moisés pode não ter existido, sugere a pesquisa arqueológica”. Mas quando entramos no escopo, a retórica é peremptória: Moisés não existiu. Este é um truque retórico.
É verdade que as opiniões dos pesquisadores divergem sobre os detalhes específicos do Êxodo (o livro bíblico que relata a libertação dos israelitas do Egito) que podem ter tido uma origem em acontecimentos reais. Para quase todos, no entanto, a narrativa bíblica, mesmo quando reflete fatos históricos, exagera um bocado, apresentando um cenário grandioso para ressaltar seus objetivos teológicos e políticos.
Sim, até aí sim. Mas a tônica irá notoriamente mudar.
O relato é carregado de elementos simbólicos. Joga com números, por exemplo, o 40, que indica uma completude, 4(número de totalidade) x 10 (número de arredondamento). A idade de Moisés, por exemplo, ao morrer com 120 anos, vemos a multiplicação de 3 (número da unidade) x 40. E, sem dúvida, possui filtragens e projeções de questões da visão de mundo do escritor sobre o que registrara. Como qualquer grande narrativa em história. Alego que se pode fazer história antiga com muito do texto bíblico, não história moderna. Entretanto, ao vermos hoje alguns historiadores admitirem contritos que "toda história é ficção", muitas vezes prosseguindo seu discurso lê-se implícito "menos a minha versão".
Contudo, o que está em jogo é a plausibilidade contextual dos relatos. Uma análise lógica simples, revela que aquilo com que muitos tomam como dados que apontam certamente que o relato é inteiramente fictício, ou que tomam como elementos que impossibilitam o fundo histórico, possuem mais retórica de intimidação aos leigos do que necessidade de inferência.
Como Marcio Loureiro Redondo aponta num artigo "Arqueologia e o impasse nos estudos da história de Israel", no tópico "Paradigmas metodológicos para o diálogo entre história e arqueologia", "(...)deve haver uma atitude positiva frente às fontes primárias. Deve-se abordar as fontes primeiras sem preconceitos, ainda que levando em conta o fato de serem tendenciosas, como aliás, todos os textos, antigos e contemporâneos, o são. Como a Bíblia Hebraica é uma das principais fontes para uma reconstrução da história de Israel e como esse texto tem um forte viés religioso, cabem aqui algumas reflexões. A natureza religiosa de um texto, mesmo a referência a eventuais milagres, não invalida necessariamente a historicidade de um relato. Não se pode descartar a priori a historicidade de um texto pelo simples fato de ele ser de natureza religiosa. Ao invés de descartar uma fonte primária ou mesmo secundária devido a seus preconceitos religiosos, políticos, étnicos, ideológicos, etc., é mister identificar tais preconceitos e trabalhar a partir daí."
O professor Airton, um dos mais renomados nomes da área no Brasil, com um biblioblog muito acessado em todo o mundo, sem dúvida foi afoito ao dizer que Moisés da Bíblia é claramente construído, sem especificar melhor o que quer dizer com isso. Pois pode indicar a pesada carga de ideário inerente a todo personagem histórico destacado, de Napoleão, Churchill, Nero, como significar que o personagem fora inventado. Muito pelo contrário, juntamente com aglutinações de elementos simbólicos, seus relatos incluem elementos de vividez incomparáveis com outras cenas lendárias como as da Odisséia - como profere o eminente filólogo e crítico literário Eric Auerbach, com seus estudos em literatura comparada na clássica obra "Mimesis: The Representation of Reality in Western Literature" - por exemplo, sem contar elementos internos de constrangimento (inexplicavelmente ignoradas pelos estudiosos que enfatizam unilateralmente as idealizações) e detalhes realistas de ambientação.
Ao apresentar suas aulas para os alunos já tomando como partida um ponto de vista que muitos deles teriam como contestar, ele fere aquele princípio que Weber invoca em “Ciência como Vocação”, ao falar do aluno sendo constrangido pelo professor que lhe impõe um viés. O aluno fica numa situação em que, se contestar, atrapalha a aula, e pode soar como desafiando a autoridade do professor. Implica aí um sistema de poder político. É injusto para com os educandos não apresentar as diversas perspectivas e seus argumentos, equilibradamente, sendo que isso não elimina o educador de trabalhar mais com a que melhor está habilitado pela sua formação.
Os pesquisadores dispõem há muitos anos do que parece ser a data-limite para o fim do Êxodo. Trata-se de uma estela (uma espécie de coluna de pedra) erigida pelo faraó Merneptah pouco antes do ano 1200 a.C. A chamada estela de Merneptah registra uma série de supostas vitórias do soberano egípcio sobre territórios vizinhos, entre eles os de Canaã. E o povo de Moisés é mencionado laconicamente: "Israel está destruído, sua semente não existe mais". Não se diz quem liderava Israel nem que regiões eram abrangidas por seu território. Trata-se da mais antiga menção aos ancestrais dos judeus fora da Bíblia.
Isso é algo tremendamente temerário. Vamos ler o que a Estela de Merneptah diz. Ela é um poema comemorativo, de louvor ao faraó Merneptah, sucessor de Ramsés II, por conquistas memoráveis. Ou seja, não faria sentido algum comemorações banais. Data do século XIII antes de Cristo.
Ela diz: Os príncipes estão prostrados dizendo: “Os reis que venceram dizem: Paz." Entre os Nove Arcos nenhum levanta a cabeça. Tehenu [=Líbia] está devastado; a terra dos hittitas está em paz. Canaã está privada de toda a sua maldade; Askalon está deportada; Gazer foi tomada; Yanoam está como se não existisse mais; Israel está aniquilado e não tem mais semente; O Haru [=Canaã] está em viuvez diante do Egito.Toda terra está unida, eles estão pacificados; cada um dos revoltosos está atado ao Rei Merneptah.
Não se diz quem liderava Gazer, nem Yanoam, nem os Haru, nem os Hititas, nem Tehenu, da mesma forma que não se fala sobre Israel; nem as regiões abrangidas pelo seu território. Então, se não fosse pelo viés do artigo, a pessoa teria que aplicar o mesmo que aplicou a Israel a todas essas nações. In Michael G. Hasel, Domination and Resistance: Egyptian Military Activity in the Southern Levant, 1300-1185 BC. Probleme der Ägyptologie 11 (Leiden: Brill, 1998), apresenta-se quinze menções de incursões militares egípcias a Canaã e diversas inscrições em relevos. Pelas “cartas de Amarna”, encontradas no Egito datando do século XV a.C., indicam haver cidades na região de Canaã com significativa infra-estrutura para se ter a certeza de que a menção na Estela é direcionada a inimigos consideráveis. Dizer que foram mencionados laconicamente... ou pior, pois sobre Israel frisou-se que não deixaram “semente”, o que indica que haveria uma preocupação com ela.
Esta parte do texto da matéria está desconstruída então. E não dificilmente. Temos elementos para situar uma sociedade relativamente estruturada israelita em Canaã no século XII a.C. Mas o que me preocupa é não só o argumento, mas a retórica. Teríamos uma contraparte do fundamentalismo, um reflexo especular? Observamos como o texto é sobremaneira capcioso, agindo de maneira claramente, parafraseando o professor Airton, claramente desonesta para com os leitores leigos.
Prosseguimos:
O problema com a idéia, no entanto, é que não há nenhuma menção aos israelitas ou a José e sua família em documentos egípcios ou de outros reinos do Oriente Médio nessa época. Pior ainda, até hoje não foi encontrado nenhum sítio arqueológico no Sinai que pudesse ser associado aos 40 anos que os israelitas teriam passado no deserto depois de deixar o Egito.
Mais uma vez reprovado no teste da inferência lógica. Não encontramos menções exaustivas a inúmeras figuras correlatas no Egito nem em textos do Oriente Médio. Há grandes lacunas. Séculos importantes dos quais não sabemos quem foram vizirs. Teríamos que dizer que então houveram períodos sem nenhuma destas figuras lá, uma grande vacuidade, o que seria absurdo. Além disso, José provavelmente fora vizir durante o período de domínio Hicso. Seria perfeitamente de se esperar que os egípcios não quisessem manter registros a respeito, visto que na maioria temos registros ufanistas e eles poderiam não querer deixar registrado arquivos que mostrassem prosperidade com perícia administrativa nestes tempos, para não despertar insatisfação popular e sentimentos de retomada deles, nos períodos de dificuldades posteriores no país. Temos registros que evidenciam escravos estrangeiros no Egito, contudo, faltam arquivos administrativos a respeito deles. Falta muita coisa, para poder dizer que devido a isso a história de José não possui plausibilidade histórica.
Sobre a passagem no deserto. A realidade não se adequa às alegações do texto. Mais um problema retórico. Para quem quiser uma refutação mais detalhada desse ponto de vista, sugerimos os livros ainda não traduzido no Brasil, “Israel in Egypt: The Evidence for the Authenticity of the Exodus Tradition”, e Ancient Israel in Sinai: The Evidence for the Authenticity of the Wilderness Tradition de James K. Hoffmeier.
Devemos levar em conta que os israelitas estavam fugindo num deserto. Faziam então acampamentos temporários que deviam ser levantados rapidamente, reaproveitando tudo ao máximo e todo desperdício deveria ser rigorosamente evitado; soma-se que ali, num deserto, contando com as diversas intempéries, evidentemente muito pouco de restos da passagens deles deve mesmo ser esperado encontrar.
Um analista de satélite, George Stephen, aponta que com o uso de tecnologia infra-vermelha pode-se ver evidências de trilhas antigas feitas por um grande contingente indo do Delta do Nilo ao sul pela costa do Golfo de Suez nas redondezas da Península do Sinai, incluindo vestígios de grandes acampamentos, abrangendo a região de Kadesh-Barnea. O que isso tudo representaria, novamente frisando, não seria evidência direta para os mínimos detalhes do relato, mas para sua plausibilidade. Havendo robustas fortalezas egípcias no “Caminho dos Filisteus”, a rota de Gaza para investidas militares em Canaã, os hebreus coerentemente foram pelo caminho sináita bem mais longo.
O arqueólogo Prof. Adam Zertal, arqueólogo da Universidade de Haifa, apresentara as descobertas de compostos de marcações em forma de pés na região do Vale do Jordão, na Gilgal bíblica, afirmando que "a estruturas que descobrimos no vale do rio Jordam são os primeiros que o povo de Israel contruiu ao entrar em Canaã e demonstram o conceito bíblico de propriedade da terra com o pé", }(...)"a Bíblia testifica a antiguidade destes compostos nos cerimoniais de Israel e as estruturas em forma de pé foram construídas por uma comunidade organizada que exercia uma liderança central". Isso indicaria uma conquista bélica. Notícia sobre a descoberta da marcação da conquista: http://www.redorbit.com/news/science/1666428/footshaped_enclosures_found_in_jordan_valley/
Tudo bem que o professor Airton destacou que há registros egípcios de revezes militares. Mas há um contraponto: da mesma forma que temos registros de derrotas assírias com Bem-Hadad II, não temos uma pintura pequena que seja de um assírio morto. Nenhum registro de quaisquer acontecimentos negativos, nem uma simples baixa de guerra, falha que seja, entre eles. E o retrato do acontecimento do êxodo não é de um simples revés militar, mas uma humilhação cultural de profundidade teológica e política, visto envolver as divindades e a figura do faraó, ou seja, os arranjos institucionais aglutinadores das estruturas de poder do império-mundo egípcio. Um risco de haver um “memorial” sobre isto abarca a própria sobrevivência do império enquanto tal. Péssima propaganda, interna e externa.
Um dos maiores egiptologistas do mundo, professor emérito de egiptologia, história do Antigo Oriente-Próximo na School of Archaeology, Classicis and Egyptology of Liverpool University, Kenneth A. Kitchen, expõe essa dificuldade em On the Reliability of the Old Testament, Grand Rapids, Eerdmans, 2003(p. 246;cf. P. 311:
A cabana de tijolos de lama de escravos e humildes cultivadores há muito que voltara às suas origens lamaçais, para nunca mais ser observada. Mesmo estruturas de pedras (tais como templos) dificilmente sobrevivem, em forte contraste com sítios no vale da falésia-emparedada do Alto Egito ao sul.
(...) praticamente nenhum registro gravado de quaisquer extensões foi obtido a partir dos sítios do Delta reduzidos a montes de tijolos ... uma ínfima fração (de datação tardia) fora encontrada carbonizada (queimada) ... uma ínfima parte dos relatórios do Delta oriental ocorrera em papyros recuperados a partir do deserto perto de Memphis. Caso contrário, a totalidade dos registros administrativos do Egito em todos os períodos no Delta estaria perdido (Fig. 32B); e monumentais textos também são quase nulos. E, como nunca faraós monumentalizavam derrotas nos muros do templo, nenhum registro do sucesso de saída de um grande agrupamento de escravos estrangeiros(com perda de uma plena esquadra de carruages) jamais teriam sido memorializadas por qualquer rei, no Delta, em templos ou em qualquer outro lugar.
Para Milton Schwantes, professor da Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, outro problema com a ligação entre os israelitas e os hicsos é dar ao Êxodo uma dimensão muito mais grandiosa do que seria razoável esperar do evento. "É uma cena de pequeno porte -- estamos falando de grupos minoritários, de 150 pessoas fugindo pelo deserto. Em vez do exército egípcio inteiro perseguindo essa meia dúzia de pobres e sendo engolido pelo mar, o que houve foram uns três cavalos afundando na lama", brinca Schwantes.
O professor e pastor Milton Schwantes, um dos maiores exegetas brasileiros, cai em uma petição de princípio. Ele disse que não se poderia estabelecer uma ligação dos israelitas com os hicsos porque a dimensão do evento foi pequena, envolvendo um grupo; contudo, porque o evento foi de tal minúsculo porte? Porque não se pode ligar com os Hicsos? Ora, se ligarmos com o período do domínio Hicso a entrada dos israelitas no Egito, o período de José como vizir e o trabalho israelita pastoril (eles valorizavam-no como semi-nômades, enquanto os egípcios desprezavam-no), a tese dele cai. Então, o que ele fez foi argumento circular com ar paternalista [ele e o professor Airton parecem se apegar teleologicamente a uma escola que propugna as origens israelitas como insurreições camponesas contra as cidade-estado cananéias, teoria que maneja mal a sociologia e teoria do Estado no tratamento analítico dos "modo de produções" da época, no simplismo ingênuo e forçado da dicotomia entre entre tradição "mosaica" libertadora e tradição "davídica" opressora, além de reportar a um maoismo juvenil]. Novamente, reportamo-nos à lógica.
Algumas pessoas antes se apegaram sofregamente a teses de que Pi-Atum ("Casa de Atum"), cidade relatada na Bíblia como um dos lugares dos trabalhos forçados hebreus, teria sido construída no século VII a.C. Hoje sabemos que ainda sob o faraó Setnakht, após Ramsés II, ela estava em construção. Teria sido renomeada em homeagem ao deus A-Tum, existindo a 150 anos antes, relacionadas posteriormente com centros de armazenamentos de cereais e fortes de guerra na fronteira no delta do Nilo.
Ele fala temerariamente sobre os israelitas não terem entendido o nome egípcio de Moisés. Parece que se esqueceu que Judá vivera sob domínio egípcio. Era óbvio, que da ligação do nome de Moisés com o deus Rá, sobrevém essa e outras ligações com outros faraós famosos como Ramsés, Ahmose, Thutmose, ficando o verbo ms-n, transliterado mase-n. Assim, ele se apoiou com muito pouco cuidado sobre esse aspecto para dizer que o nome fora uma construção para o artifício literário israelita, o que é incompreensível para um professor com tal gabarito, a não ser que indique uma predisposição incontida para tal. Vemos que os dois lados extremos, o maximalista e o minimalista, se igualam em questão de objetividade.
Na referência a Yam Suph, se o “Mar dos Juncos” for o golfo de Acaba, braço do Mar Vermelho na praia de Nuweiba, a rota se coadunaria com os caminhos entre os montes da área. Numa dessas margens foram encontradas colunas comemorativas em ambas as margens. No lado árabe registrava-se a inscrição “Egito; Salomão; Edom; morte; faraó; Moisés”, querendo dizer que foi erguida comemorativamente por Salomão ante ao Êxodo - o que não prova que foi. No fundo do mar ali encontram-se muitas ossadas e o importante, restos de carros de guerra.
Pode-se até mesmo ver uma coerente consequência "geopolítica" do evento do êxodo na região, quando constatamos um aumento significativo da turbulência envolvendo sublevações de nações contra o Egito e reações egípcias implacáveis (como atestado na Estela de Merneptah) no período da segunda metade do século XIII adiante, com um notório enfraquecimento, substancial, do controle egípcio a partir da segunda metade do século XI; registra-se ainda turbulências internas em Canaã nesse período causadas pelos chamados habiru - N. K. Gottwald, As tribos de Iahweh: uma sociologia da religião de Israel liberto 1250-1050 a.C. (São Paulo: Paulinas, 1986), semitas aparentados com os hebreus.
Vamos agora à última desconstrução, o argumento de Finkelstein. Ele não resiste a um escrutínio lógico do mais simples. Erudição não significa inteligência mais arguta. Na chegada do povo do êxodo à Palestina, travaram embates com inimigos e estabeleceram também relações amistosas com povos que ocupavam principalmente a Palestina Central, povos seminômades semitas. Pelos relatos bíblicos, apenas um sítio ao sul e outro ao norte teriam sido devastados de forma a não deixar evidências; alguns críticos então acabam trabalhando sobre “teses fantasmas” segundo as quais os relatos falariam de destruição maciça generalizada, que não se encontra lá. Se fala em Josué 13.1 que “muito da terra continuou para ser conquistado”. Se afirma lá que as cidades de Bete-Seã até Megido não foram tomadas (Jz 1.27), e as escavações revelam mesmo a presença de tributárias egípcias até 1150 a.C. Essas cabanas de 4 cômodos a que ele se referiu, descobertas em Medinet Habu, atestam que era o modelo da regiao na Idade do Ferro.
Então, nos situemos. Os israelitas chegam à Canaã. Vieram de um vasto período de escravidão no Egito. Não seria o mais razoável imaginar que naquela nova geografia, eles tivessem inteligência suficiente para imitar o estilo de construção caananita, adaptado e de fácil replicação? Sobretudo por terem ocupado primeiramente a região montanhosa. Isso qualquer pessoa pode inferir. Pelo argumento dele, seria necessário que os hebreus tivessem inventado um novo tipo de estrutura de habitação naquela região à sua chegada; e não dando certo, ou tendo resultado inferior, permanecido com elas.
Mas podemos ampliar ainda mais nossa perspectiva:
Esse tipo de casa é encontrado em todo o país. É o tipo predominante de construção no Israel da Idade do Ferro (1200-586 a.C.). Apareceu pela primeira vez por volta de 1200 a.c.e. e atingiu sua forma madura [...] um pouco antes de 1000 a.e.c. [...] Dominou a arquitetura da Idade do Ferro II [...] e desapareceu completamente depois da destruição babilônica de 586 a.C.- em: BUNIMOVITZ, S. e A. FAUST, A. Ideology in stone: understanding the four-room house. Biblical archaeology review 28.4 (2002) p. 32-41, 59-60.
Algo não pode ser deixado de mencionar aqui. Este texto foi contraposto aqui por um leigo, que não julgou ser necessário trazer uma discussão maior, com mais referências, em outras obras para contrapor. A maior parte da desconstrução fora feita usando lógica simples.
Na minha formação acadêmica em agronomia pude estudar estatística básica e estatística aplicada. Envolvem instrumentais de controle e rigor para as ciências. Confere a elas um caráter mais democrático. É claro que um pesquisador renomado, uma sociedade científica, possuem um peso considerável num debate a respeito de um tema, e para fortalecer um paradigma ante anomalias. Contudo, o teste estatístico, que averigua a variância, margem de erro, amplitude, etc., é objetivo, e qualquer um pode desbancar uma tese se mostrar que há erro num cálculo simples no “Teste de Tukey”. Nesse campo de estudo da história, lidamos com variáveis, elementos e “objeto” de estudo muito menos passivos de controle, sujeitos a maior extrapolação. Com isso, o elemento de controle correspondente deve ser a lógica e análise retórica.
Eruditos elencam dados. Um leigo pode analisar seu escrito e dizer “tal dado, com aquele outro, não levam necessariamente a tal conclusão”, ou “tal conclusão não corresponde a uma sequência lógica a partir disso”, ou “aqui há mais retórica e menos concisão”; diversos escritos imensos, com um escopo de notas de rodapé maior do que o corpo de texto, padecem de problemas como “imagens semi-aderentes”, “médias unidimensionais”, etc. Isso serve como um imperativo do qual os pesquisadores nesse campo não podem se escusar, o cuidado retórico, auto-crítica e o apreço pela boa disposição silogística dos argumentos.
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quarta-feira, 1 de julho de 2009
Honduras: o fantasma de Pinochet volta a assombrar a América latina
O Presidente Manuel Zelaya pressionava pela convocação de uma consulta popular a respeito da possibilidade de incluir-se, de forma democrática e republicana, na constituição, a reeleição com mandato normal, limitado.
Ora, ora, tem um bode na sala. Não se dizia que a popularidade de Manuel Zelaya estava caindo? Noticiava-se na imprensa que estaria abaixo de 30%. Então, porque temerem uma consulta popular que não significaria, per se, mudança constitucional?
Ehhh...
Agora, e se a consulta desse "sim"? Significaria automaticamente mudança constitucional? Não.
Mass....significaria uma grande deslegitimação para o projeto envolvendo a direita que ainda não engolira ter sido deposta do executivo. O projeto que agora, depois de amargar "um período de esquerdismo (sic)", os miltares, a Suprema Corte, a plutocracia e os bandos iriam querer de forma recrudescida. Agora então, que Bush saiu, piorou, provavelmente esperariam algum apoio dele. Então, a cartada foi essa: afinal, é o que esse grupo sempre soube fazer de melhor na A.L., é a racionalidade deles.
Então, com certeza não sabíamos nada realmente sobre a "popularidade" do presidente lá, afora as filtragens de nossa linda e esclarecida imprensa "livre". Uma vitória nessa consulta não acarretaria mudança constitucional automaticamente, isso nem se discute; mas significaria sacramentar que, com o presidente ou sucessor, os rumos da política experimentaram um ponto de não-retorno com a direita plutocrata. Ela não podia correr o risco, agora sem o Bush, de deixar isso explícito, a "imprensa livre" lá ficaria com cara de tacho também quando querer dizer que é a "opinião pública".
Sinal para se ter cuidado em toda a América Latina. As direitas podem ter se apercebido disso, e alguém confia que vão querer "o jogo democrático"?
Constituição de Honduras:
"ARTICULO 272.- Las Fuerzas Armadas de Honduras, son una Institución Nacional de carácter permanente, esencialmente profesional, apolítica, obediente y no deliberante. Se constituyen para defender la integridad territorial y la soberanía de la República, mantener la paz, el orden público y el imperio de la Constitución, los principios de libre sufragio y la alternabilidad en el ejercicio de la Presidencia de la República."
Pronto, acabou, lê-se aí que foi um golpe, exibição de “Poder Nu”, e admitiu-se com todas as letras.
A não ser que Nada disso aí esteve implicado. O presidente queria uma consulta popular, não dar um golpe. Aliás, mesmo depois, se a população pressionasse para ele ser eleito, isso não é ditadura. Continuaria havendo um mandato limitado.
"ARTIGO 4 - A forma de governo é republicana, democrática e representativa. É exercida por três poderes: Legislativo, Executivo e Judiciário, complementares e independentes e sem relações de subordinação. A alternância no exercício da Presidência da República é obrigatória. A infração desta norma constitui delito de traição à Pátria.
Uma consulta popular informal não seria para perpetuidade do poder sem mandato. Se ele for mal, opera-se um impedimento formal, ou no final do mandato mudam. E não se falara nada, não custa lembrar, nada sobre reeleições indefinidas.
ARTIGO 42 – “A qualidade de cidadão se perde:
(...)5. Por incitar, promover ou apoiar o continuísmo ou a reeleição do Presidente da República."
Uma consulta popular informal não seria para perpetuidade do poder sem mandato. Se ele for mal, há impeachment, ou no final do mandato mudam. E não falou nada sobre reeleições indefinidas.
Agora, interessante. Quer dizer que se o cidadão apoiar a reeleição ele deixa de ser cidadão? Não, essa interpretação é equivocada, pois fere isso:
"ARTIGO 4 - A forma de governo é republicana, democrática e representativa."
Ou seja, democraticamente poderiam se manifestar para que o presidente se submeta a uma eleição em que não ocorra "restringir a liberdade de sufrágio, adulterar documentos eleitorais ou empregar meios fraudulentos para burlar a vontade popular;" votarem livre, res-publicana e democraticamente para um novo mandato, limitado, ou trocar de presidente. Senão não há liberdade democrática nem republicana lá. Haveria o emprego, o poder nu do exército, em "empregar meios fraudulentos para burlar a vontade popular;" como foi o caso. O exército no poder lá perdeu o direito de ser cidadão.
O que Manuel Zelaya irrita os plutocratas era em si propor uma consulta popular. Na mídia não diziam que a aprovação dele era de menos de 30%? Então, medo de quê? Do mesmo jeito que deram o golpe agora eles poderiam dar se ele desse uma banana pra consulta. O máximo que poderia sair da consulta é uma necessidade de debate público participativo, caso desse significativamente favorável a ele contudo pela lógica dos “formadores de opinião”, isso seria impossível...
Aquilo que o presidente propôs é uma coisa que FHC não se deu ao trabalho de fazer, e foi ditador?
O que eu penso é o seguinte: deveria a ALBA subscrever para o Congresso e o Presidente dos E.E.U.U. perguntando se vão promover um embargo a Honduras.
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sexta-feira, 12 de junho de 2009
O Sapo que os Formadores de Opinião estão engolindo
Hoje, todos falam que o Brasil não acompanhou o debacle econômico ao redor do mundo; debacle este que atingira em cheio as economias as quais os "formadores de opinião" jogavam-nos na cara. Todos suspiram aliviados, apontando aqui e ali os motivos para receio. Mas ninguém se atreve a perguntar "porquê" não acompanhamos; não vemos os mesmos sermões incisivos e repletos de jargões, nos editoriais dos jornais, nos colunistas, nos barraqueiros da blogosfera. Porquê? Porque sabem que teriam de apontar justamente o fato de não termos tomados as medidas que queriam impor para fazerem os lobbies de quem os bancam. Seria muito estúpido falaram que não caímos devido à política monetária do Banco Central, nas portas escancaradas para o fluxo de capital, e outros fetiches caros a eles, que são seguidos em vários dos "países-modelo" que eles nos esfregaram na cara e que despencaram na crise geoeconômica.
A questão incisiva é esta: não acompanhamos o debacle mundial, porque não seguimos a risca o que os editoriais, colunistas e demais lobbistas receitavam-nos, suas "reforlmas" , e a cópia pura dos "países-modelo" que antes usavam para nos comparar (e hoje não se atrevem a fazê-lo...). Tivéssemo-los ouvido, e estaríamos acompanhando as recessões intensivas daqueles para quem nos apontavam...
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Cenário para a política mineira
Este movimento fora formado através de uma coalizão de tendências do partido, que emergiu após o vexaminoso conchavão nas últimas eleições.
Resta-nos agora esperar que tal movimento mantenha, não só a unidade, mas a coerência. Porque, em Minas Gerais, desde as eleições em que se formara um conchavão com Newton Cardoso, após cenas infantis de pirraça de Nilmário Miranda, que manchara para sempre a imagem do partido. Após ter estourado este limiar, o que ocorrera em Belo Horizonte, denunciado pelo “informadordeopiniao”, já tinha o campo aberto.
Já se colhem os frutos desse conchavão. Como denuncia http://ocupacaodandara.blogspot.com/
Lacerda Santos Amorim da Coordenação do Projeto Escola Aberta naquela unidade educacional. Da mesma forma, a companheira Dayse Antonia França foi exonerada do Distrito Sanitário do Barreiro (Zoonoses) sem qualquer justificativa. Lacerda e Dayse são destacadas lideranças da Comunidade Camilo Torres. (...)O Secretário da Regional Barreiro, Senhor Leonardo Couto (na foto com Marcio Lacerda), ordenou à Diretora da Escola Municipal Luiz Gonzaga Junior que efetuasse o desligamento arbitrário do companheiro Lacerda Santos Amorim da Coordenação do Projeto Escola Aberta naquela unidade educacional. Da mesma forma, a companheira Dayse Antonia França foi exonerada do Distrito Sanitário do Barreiro (Zoonoses) sem qualquer justificativa. Lacerda e Dayse são destacadas lideranças da Comunidade Camilo Torres. Esse senhor [Leonardo Couto], na última reunião realizada no dia 14 de maio, chegou a oferecer bolsa aluguel às famílias durante 90 dias (!) para sair pacificamente do terreno e permitir a demolição dos seus lares.O comunicado da prefeitura foi seco:
"Solicitamos que o Senhor Lacerda dos Santos Amorim seja desligado da função de coordenador da Escola Aberta desta escola".E a portaria da Escola:
"Declaramos que nesta data estamos desligando da função de coordenador da Escola Aberta desta escola o Sr. Lacerda dos Santos Amorim, atendendo solicitação do Sr. Leonardo Couto - Secretário de Administração Regional Municipal Barreiro. Declaramos também que nestes três anos de coordenação do projeto o Sr. Lacerda executou com competência, dedicação e legitimidade as tarefas a ele atribuídas, de forma voluntária".
Teremos nessas disputas preliminares do PT para o governo estadual um grande divisor de águas histórico. E o momento para este lançamento é mais que oportuno. Pimentel apostara seu futuro político em ser a sombra de Aécio Neves, buscando usufruir da censura e blindagem midiática com que o político do PSDB conta em Minas Gerais. Contudo, dentro do próprio partido, Aécio Neves sofreu um grande revés, pois é certo que o candidato deste para 2010 seja José Serra, mais conhecido no Brasil, contando com apoio de caciques como FHC e Arthur Virgílio, e historicamente contando com a militância encampada pelos jornais Folha de São Paulo (o que comprou a tese de que nossa ditadura fora uma “ditabranda”) e o Estado de São Paulo. Aécio, para manter a pose, apostando talvez em 2014, declinou com o aceno (que parece ser talvez um blefe, visto que o partido de forma alguma abriria mão de uma coligação forte que necessariamente implicaria um vice de outro partido) do PSDB para ser vice de Serra, um prêmio de consolação. A imprensa mineira, especialmente os jornais Estado de Minas, Hoje e O Tempo, que tentam fazer com Aécio o que os dois jornais de SP fazem com Serra, amargou esta frustração.
Sendo assim, não haveria momento pior para Pimentel, que com esse declínio do movimento Aécio-presidente, ficará enclipsado, e suas ameaças de troca de partido agora não representam algo que concretamente traria alguma vacilação no PT, dando peso para não haver prévias. Dificilmente conseguirá desbancar Patrus, e se for experto, tentará concorrer para Senador.
Esperamos que, com o Deputado Padre João como presidente se confirmando nas eleições, o PT possa experimentar uma reconversão, sendo um espaço para incrementar a participação popular, e pautar temas conjuntos com os movimentos populares, com organização de trabalhadores, e agentes engajados no desenvolvimento sustentável com equidade regional e desconcentração espacial, possam estar constantes nas capas das agendas.
O “informadordeopiniao” é um espaço autônomo e de independência política. Contudo, atestamos o comprometimento programático e vital do gabinete do Deputado Estadual Padre João com trabalhadores e trabalhadoras rurais, sem distinção de região política, inclusive atuando em apoio às lutas de agricultores e agricultores encurralados por maciços de monoculturas de Eucalipto no Vale do Jequitinhonha, buscando em seu mandato, como pode ser atestado por quem assiste TV Assembléia ou acompanha a dinâmica da A.L., sua militância pela Justiça Ambiental, agindo com destemor ao questionar o caráter “desenvolvimentista”, de projetos que são nada mais e menos do que a socialização de custos pela sociedade via Estado, com a apropriação privada dos lucros. Atua em prol de populações atingidas nos direitos mais básicos, deslocadas por megaprojetos verticalistas que promovem graves problemas de concentração humana, arranjos socioeconômicos e culturais locais desintegrados, onde em nome de uma abstração econômica e política, sacrifica-se incontável número de famílias.
Assim, abstemo-nos de uma neutralidade que seria conveniência com o errado, para atestar como este mandato do Deputado articula com trabalhadores e suas organizações e defendendo suas conquistas, que são o verdadeiro balizar de uma mínima democracia social e econômica - como a seguridade social e os direitos trabalhistas - e envolvendo-se com os segmentos historicamente marginalizados e explorados(movimentos e comunidades negras, indígenas, agricultores, sem-terra, etc.).
Dessa forma, espontânea e livremente, sem vínvulo partidário, esperamos que possa dar certo esta proposta tirada pelo Movimento Coerência Petista.
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terça-feira, 19 de maio de 2009
Nietzsche, Nazismo, Poder - infusões e confusões
Um problema básico no debate quanto ao foco na discussão de Nietzsche [tal como se dá em outras tantas discussões sobre nazismo] é relacionar apenas à questão do "antissemitismo". Como se nazismo significasse apenas ódio aos judeus - Nietzsche criticara muito o compositor Wagner, dentre outras coisas, por sua aversão aos judeus; e dizia que essa aversão, nos alemãos, se dava por inveja para com os judeus.
Uma influência dele no pensamento nazista estaria na sua abordagem moral. Ele argumentava que a moral não tinha nenhuma base que não fosse subjetiva, e sua proposta de "transvaloração" remetia a uma tese, de que tudo o que fosse moral era simplesmente um subterfúgio dos “fracos”, dos menos capazes, para constranger os que são destinados à vitória, à força, à subjugação dos mais fracos, apegando apenas a si mesmos, para transcender a espécie e ao estado de coisas. Algo mais ou menos como a linha de Raskolnikov em "Crime e Castigo" antes do aprendizado com a prisão e sofrimento. O filósofo alemão remetia a termos como "essa pessoa é nobre", "virtude", etc., com sua formação em filologia. E dizia que "bem", "mal", eram criações arbitrárias para constranger os legítimos homens superiores.
Na verdade, ele foi extremamente perspectivista, não concordando com qualquer hipótese de conhecimento objetivo verdadeiro, mas como projeção. Ultrapassava, nessa acepção, que na questão moral ia além mesmo a de sofistas gregos como Protágoras.
Alguns replicam "ah, isso é um mal-entendido, não é isso o que ele quis dizer", isso então implicaria que ele não soubesse dizer as coisas direito. Pois pegando "A Genealogia da Moral", "Além do Bem e do Mal", "Humano, Demasiado Humano", ele deixou isso bem claro, a não ser que ele não soubesse se expressar direito...
Em “Genealogia da Moral":
Mas a "finalidade no direito" é a última coisa a se empregar na história da gênese do direito: pois não há princípio mais importante para toda ciência histórica do que este, que com tanto esforço se conquistou, mas que também deveria estar realmente conquistado - o de que a causa da gênese de uma coisa e a sua utilidade final, a sua efetiva utilização e inserção em um sistema de finalidades, diferem toto coelo[totalmente, de ponta a ponta]; de que uma vez que é produzida alguma coisa, de uma maneira ou de outra, não cessa de ser interpretada em função de novas intenções por um poder que lhe é superior, de se ver reconfigurada e reordenada para novo uso; que tudo o que acontece no mundo orgânico está inteiramente ligado às idéias de subjugar, de dominar, e toda a dominação, equivale a uma interpretação sucessiva, a um acomodamento da coisa, no qual o “sentido” e a “finalidade” que prevaleciam até o presente deveriam necessariamente ser suplantados ou totalmente extintos”.
Se isso não legitima a tirania, e rouba qualquer aporte objetivo para a contestação dela, nada mais o faria.
A não ser
Roma enxergou no judeu algo como a própria anti-natureza, como que seu monstro antípoda; em Roma os judeus eram tidos por "culpados de ódio a todo o gênero humano": com razão, na medida em que se tenha razão ao vincular a salvação e o futuro do gênero humano ao primado absoluto dos valores aristocráticos, dos valores romanos.Pois os romanos eram de fato os fortes e nobres, mais que todos os povos da Terra; cada vestígio de sua dominação, a menor inscrição deles nos deixa perplexos, se apenas se percebe o que escreve aquilo. Os judeus, ao contrário, foram o povo sacerdotal do ressentimento par excellence, possuído de um gênio moral-popular absolutamente sem igual: basta comparar os judeus com outros povos similarmente dotados, como os chineses ou os alemães, para sentir o que é de primeira e o que é de quinta ordem.(...)
Foram as raças nobres que deixaram na sua esteira a noção de "bárbaro", em toda parte aonde foram; sua cultura mais elevada continua a evidenciar o fato de que elas tinham consciência disso e até mesmo orgulho a respeito (como quando Péricles diz a seus atenienses, naquela famosa oração fúnebre, que "em toda terra e em todo mar a nossa audácia abriu caminho, erguendo para si monumentos imperecíveis no bem e no mal"). Esta "audácia" das raças nobres, a maneira louca, absurda, abrupta como se manifesta, o elemento incalculável, improvável, de suas empresas - Péricles destaca elogiosamente a despreocupação dos atenienses, sua indiferença e seu desprezo por segurança, corpo, vida, bem-estar, sua terrível jovialidade e intensidade do prazer no destruir, nas volúpias da vitória e da crueldade para aqueles que sofriam com isso, tudo se juntava na imagem do "bárbaro", do "inimigo mau", como o "godo", o "vândalo".(...)
Isso aí foi apropriado para legitimação do discurso de que os arianos seriam os "além-do-homem", os superiores, que não deviam se constranger com usar tudo e todos para o seu destino de transcender a história.
Claro que ele não dizia que necessariamente o "além-homem" seria ariano...e criticou os anti-judeus porque dizia que era fruto de inveja do sucesso dos judeus...mas isso aí não requisitava nenhuma operação mental sofisticada para alguém poder legitimar seu próprio chauvinismo genocida...
Contudo, é importante deixar claro que a grande diferença é que a doutrina do ubermensch de Nietzsche, o seu "além-do-homem", não se fundava numa herança essencial de tempos imemoriais. Ela foi usada para conferir um vigor e reforçar o apelo, pelos nazistas, aplicada até mesmo na sua visão geopolítica, mesclada com os pensamentos esotéricos e no lamarckismo social e algumas nuances mais radicais do hegelianismo de direita e sua visão de Estado como o âmbito da/para a realização do espírito. Nietzsche de fato deixava eloquentemente claro sua aversão à reivindicações do Estado Nacional Moderno, sendo mais favorável a uma aristocracia imperialista.
O meu ponto é esse, a apropriação das idéias de Nietzsche, o uso como retórica legitimadora e de projeto.
Meu questionamento de forma alguma tem a ver com apoiar a tese de que Nietzsche seria responsável pelo Nazismo. Da mesma forma que muitos promoveram um reavivamento do estudo da literatura da mitologia nórdica e germânica, pré-cristã e contemporânea do cristianismo nessas regiões, e nem por isso passaram perto do Nazismo. Tolkien e Barfield nunca pregaram um "nazismo inglês", assim também Rudolf Steiner e a antroposofia na Alemanha.
Contudo, proponho uma reflexão: até que ponto os nazistas, a partir de sua apropriação das idéais do pensador, foram incoerentes com elas, ou as levaram às últimas consequências, aliadas ao seu ideário racialista, e a perspectiva do capitalismo dirigista/verticalista, desde a racionalização teórica de Friedrich List e a base pragmática de Bismarck??
Creio que foi uma coisa terrível essa proposição do perspectivismo. Pois abandonando qualquer parâmetro de ontologia para a verdade, o bem e o belo, também perde-se as bases mais fundamentais para o questionamento da tirania; para algum apelo universal para a validade da desobediência civil; de se questionar se ou afirmar que uma lei ou ordem social institucionalizada é injusta. Não existe mais um árbitro. É simplesmente questão de quem tem condições de impor o que quiser. Os tiranos podem dizer: "então, nós podemos, nós fazemos; e daí?" Essa lógica da dominação, manipulação de vidas para experimentos, e genocídios, é nua nos nazistas.
Isso não quer dizer que nunca se questione pontos de códigos morais. Mas tem a ver com a partir de quê se questiona. Pode-se questionar "de dentro", a partir da própria ontologia do código. Se for apenas por questão de preferência, abre-se o campo para o voluntarismo nu e o adestramento, condicionamento, e massificação.
É verdade que os preceitos de justiça, não importando se são formulados sob quais critérios, só se tornam aplicavelmente efetivos se amparados por aparatos coercitivos. Mas fica a questão: o que dá legimitidade? Afinal, em quê se apóia, em última instância, alguém que se afirma como sujeito de direitos? Em arbitrariedade? Por que “direitos”? http://informadordeopiniao.blogspot.com/2007/09/sujeito-de-direitos-em-qu-se-sustenta.html
O lamarckismo social encontra aí horizonte aberto.
Quem se recordar da discussão clássica, Bartolomé de Las Casas não propunha um relativismo, tal como um Montaigne, na denúncia dos abusos, arbitrariedade, e tirania contra os “ameríndios”. Ele apelava, no fundo, a uma perspectiva mais fundamental de Verdade e Bem, a partir da qual podia dizer que as alegações de Sepúlveda e os dominadores ficavam a quem, usurpavam e eram ilegítimas. Somente assim ele pôde apontar as incoerências e distorções.
Como no debate, que sempre retomo, entre Foucault e Chomsky. Foucault adotava um resgate do perspectivismo de Nietzsche, e negava um princípio fundamental para a justiça. Dizia que era simplesmente questão dos trabalhadores estarem na escala inferior de poder, e tomarem-no para terem o poder para si. Chomsky apelava a princípios maiores de justiça. Dizia que o abuso dos trabalhadores é intrinsecamente injusto; e por esses princípios, se julgaria também se alguém usasse um “governo dos trabalhadores” para o poder nu e opressão. Ao que Foucault teve que esquivar-se dizendo apenas que, se ocorresse isso, era porque eram falsos trabalhadores no poder. Mas isso fora uma escapulida oportunista, não uma resposta direta.
Trecho (não consta no resumo do vídeo, mas está reproduzido de acordo com a janela para o Le Monde Diplomatiqué) :
Chomsky: Pessoalmente, não concordo. Por exemplo, se eu me convencesse de que a ascensão do proletariado pudesse levar a um Estado policial terrorista, onde a liberdade, a dignidade e as relações humanas decentes desaparecessem, eu tentaria impedi-la. Acho que a única razão para apoiar essa eventualidade é acreditar, com ou sem razão, que os valores humanos fundamentais possam se beneficiar com essa transferência de poder.
Foucault: Quando o proletariado tomar o poder, é possível que ele exerça contra as classes sobre as quais tenha triunfado um poder violento, ditatorial e até mesmo sangrento. Não vejo que objeção se possa fazer a isso. Agora, você me dirá: e se o proletariado exerce esse poder sangrento, tirânico e injusto contra si mesmo? Então, eu responderei: isso só pode ocorrer se o proletariado não tiver tomado o poder realmente, mas, sim, uma classe externa ao proletariado ou um grupo de pessoas, uma burocracia ou os restos da pequena burguesia.
Chomsky: Essa teoria da revolução não me satisfaz por uma série de razões, históricas ou não. Mesmo que a aceitássemos no âmbito da argumentação, essa teoria sustenta que o proletariado tem o direito de tomar o poder e de exercê-lo com violência, injustiça e sangue, sob o pretexto, a meu ver errôneo, de que isso levará a uma sociedade mais justa, onde o Estado se enfraquecerá e onde os proletários formarão uma classe universal etc. Sem essa justificativa futura, a idéia de uma ditadura violenta e sangrenta do proletariado seria perfeitamente injusta (...) Sou muito cético quanto a uma ditadura violenta e sangrenta do proletariado, principalmente quando ela é expressa por representantes autodesignados de um partido de vanguarda que — e temos experiência histórica suficiente para saber ou prever isso — serão simplesmente os novos dirigentes dessa sociedade.
http://diplo.uol.com.br/2007-08,a1854
Sempre chocante pra mim, foi a polêmica e provocativa asseveração de Feyerabend, no livro “Diálogos sobre o Conhecimento” [Editora Perspectiva], da qual não vejo como se escapar, pois é certeira e vai ao âmago:
"O problema relativo à Hitler não equivale àquele em que se pergunta como uma rocha ou um vampiro podem provocar a morte de tantas pessoas, mas antes se se pergunta como pode um ser humano como o meu melhor amigo executar uma ação do gênero. Leia Eginnerungen "Memórias" de Albert Speer e pense em Ingmar Bergmann, que conta ter-se apaixonado por Hitler depois de um discurso do qual foi testemunha quando, como estudante,, esteve na Alemanha. Tenha grande desconfiança do espírito humanitário que parte de uma idéia e procura comprimir dentro dela o mundo. Suspeito também das declarações sintéticas de horror realizadas pelos fautores de tais idéias. Uma idéia de humanidade que não esteja fundada sobre sólidas relações pessoais produz retórica vazia, que pode ser combinada com as ações mais atrozes."
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