sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

É preciso lutar pela estruturação do serviço público no MDA


eciso lutar pela estruturação do serviço público no MDA
Associação Nacional dos Servidores do MDA – ASSEMDA
Seção Sindical MDA - SINDSEP-DF

No dia 06 de dezembro acontecerá o primeiro encontro dos servidores com o ministro da pasta do desenvolvimento agrário, momento em que a Administração do MDA, depois de dois anos, se pronunciará sobre as demandas apresentadas pelo movimento sindical.

Sendo que para o 07 de dezembro há indicativo de greve do movimento. A posição aprovada pela Assembleia do dia 1º de dezembro é de que caso o Ministro não atenda a pauta de reivindicações de estruturação do órgão e de melhoria das condições de trabalho, os servidores deflagarão o processo grevista já em Assembleia de avaliação marcada para a data. O conflito de interesses entre servidores e Alta Administração do Ministério se agravou nos últimos meses, quando houve retrocessos no processo de negociação.

As dificuldades do serviço público no MDA são históricas. Foram necessários 10 anos e um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) firmado com o Ministério Público e TCU, para que o órgão realiza-se o seu primeiro concurso público, em 2009. Hoje o número de concursados do órgão somam menos de 150 servidores, já representando uma evasão de 1/3 de seu efetivo.

O quantitativo de servidores efetivos do MDA é irrisório para um órgão que tem competências institucionais (Decreto Nº 7.255) tão amplas como a reforma agrária, a promoção do desenvolvimento sustentável do segmento rural constituído pelos agricultores familiares, e a identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas pelos remanescentes das comunidades dos quilombos, além das competências relativas à regularização fundiária na Amazônia Legal.

É também irrisório o quantitativo de servidores para um órgão que tem atuação precípua no meio rural brasileiro, onde se localizam 36% dos que vivem em extrema pobreza (dados do IPEA), ou três milhões de pessoas. É de se perguntar, como o principal órgão estatal de desenvolvimento agrário poderá cumprir compromisso de campanha da presidenta de erradicar a miséria no meio rural em quatro anos com a estrutura de trabalho e pessoal que possui?

A resposta é simples: não podemos.

O MDA hoje secundariza a estruturação do serviço público no órgão, o que acaba também por secundarizar a promoção do desenvolvimento rural.

A estrutura de serviço público no MDA é vergonhosa. Não há política efetiva de capacitação. Não há política efetiva de qualidade de vida no trabalho. Não há política de carreira. Não há política de contratação de novos servidores, apostando a Administração ainda na precarização do trabalho, através das consultorias e terceirizações irregulares.

E sobre as consultorias. Pela lei os contratos, os serviços de consultoria deveriam versar sobre serviços técnicos especializados, não realizáveis por servidores públicos de carreira. Porém, apesar de não constar no objeto de contrato dos consultores, é recorrente e de conhecimento público, que os consultores contratados pelo órgão – através de organismos internacionais – realizam atividades rotineiras da Administração Pública. No órgão, ante a falta de servidores, os postos de trabalho são precariamente preenchidos por agentes públicos irregulares, que não possuem os direitos básicos trabalhistas, como férias e 13º salário. Pessoas que não possuem direito sequer de protestar.

A verdade política decorrente desta falta de estruturação do órgão, é que, mesmo com os programas do ministério, a agricultura familiar no Brasil encontra-se mais endividada que nunca. A verdade é que a concentração fundiária cresceu nos últimos anos, que as mortes no campo por conflito se propagaram. A verdade é que a pobreza concentrou-se no campo brasileiro, como mostram os dados apresentados pelo próprio governo.

Mas de onde veio este tipo de atuação? Não estávamos nos últimos anos estruturando o Estado para atendimento às necessidades sociais do povo brasileiro?

Não é bem assim.

A década de 90 foi fortemente marcada pelo debate sobre o papel do Estado, especialmente sobre o seu tamanho e os gastos com o funcionalismo público. Foi assim que, do ponto de vista liberal, prevaleceu à ideia de um Estado mínimo para o social, a quem caberia apenas garantir os direitos de propriedade, além de incentivar o mercado na coordenação da economia.

E como consequência, o receituário liberal compôs um conjunto de entraves para restringir a atuação social do Estado, e o orientou para o ajuste fiscal e para as reformas orientadas para o mercado. Os funcionários públicos foram massacrados ideologicamente, elevados a categorias de vilões, perseguidos como “ineficientes”, e viram seus direitos e quantidade se reduzirem nos anos subsequentes.

Os funcionários públicos hoje representam apenas 8% dos trabalhadores brasileiros. Em 1980 éramos 12%. Nos países ditos desenvolvidos essa quantidade varia entre 18%, nos Estados Unidos, a 40%, nas nações escandinavas. Situação que fez o presidente do IPEA, Márcio Pochmann, afirmar que no Brasil nós temos um “Estado raquítico”.

Se não lutarmos parece que nada mudará. A proposta orçamentária do governo federal para 2012 destinará 47,9% dos recursos para gastar com juros e amortizações da dívida. Enquanto isso, os gastos com servidores públicos - "sempre acusados de vilões do Orçamento" - ficarão com 9,59% do total. Todos os demais gastos sociais ficam com 36%, e os investimentos com apenas 2,73%. Nos últimos três anos, os recursos totais para o MDA e INCRA representaram em média de 0,25% do Orçamento. Isso mesmo, nem mesmo 1%!

Houve muita ideologia e poucos dados nas argumentações de que o serviço público era ineficiente. E todas as ideias propagadas serviram apenas como preparação para o controle privado do Estado e para os processos de precarização dos serviços públicos ainda hoje presentes.

Porém, nos últimos anos a sociedade brasileira vem colocando a si o desafio da distribuição de renda, da erradicação da miséria, da educação. Rechaçamos a perspectiva liberal e suas consequências, e passamos a defender uma intervenção estatal na promoção da igualdade. Em sua grande maioria, o povo brasileiro quer a promoção da agricultura familiar no campo brasileiro, quer a universalização da educação e da saúde públicas.

Porém, no âmbito da Administração Pública ainda se mantêm os processos de precarização do trabalho e contenção orçamentária para as atividades sociais.

Enquanto servidores acreditamos que para superarmos essa barreira é preciso que lutemos pela estruturação dos órgãos públicos para atendimento das demandas sociais. É preciso, é absolutamente preciso que também o povo brasileiro se some aos servidores na defesa do serviço público.

Por isso que convidamos a todos os membros da sociedade civil interessados no assunto a se fazerem presentes na Audiência Pública com o Ministro Afonso Florence no dia 06 de dezembro às 10 horas, no Bloco A, Esplanada dos Ministérios. E convocamos a todos os servidores do órgão a participarem deste momento impar em nosso ministério.

quinta-feira, 3 de março de 2011

O sinistro casuísmo entre o Governo Marconi Perigo e a Federação Coronelista

Com a eleição de Marconi Perillo (PSDB) para Governo de Goiás, este passa a ser o Estado que mais acumula lideranças de direita contra o Projeto Nacional; o setor do agronegócio mercantilista de escala ocupou os cargos mais estratégicos do governo, tais como: Secretaria da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seagro), sua Superintendência e gerências; Presidência da Empresa de Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisa Agropecuária (Emater) e Suas Gerencias; Superintendência da Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa); Agência Ambiental. Influenciando inclusive espaços privados como: Sebrae, e suas gerencias; Senar; dentre outros.

Esses espaços nunca estiveram a serviço da Agricultura Familiar (AF), e, nem comprometido com uma política sistêmica e estratégica para superação dos gargalos sociais, cívicos, econômicos dos agricultores/as familiares, bem como os quilombolas, pescadores e agroextrativistas. Estes seguimentos nunca foram protagonista nesses espaços.

E essa disputa pela ocupação - e mais ainda, pela definição de rumos e norte programático – da máquina estadual também se direciona para os órgãos federais.

O Estado de Goiás não é hegemônico do agronegócio de escala, a despeito da imagem que se vende. Goiás tem hoje, 120 mil famílias de Agricultores ffamiliares, aproximadamente 500 mil Agricultores; 300 mil Agricultores arrendatários, pescadores, ribeirinhos, extrativistas, quilombolas, índios e outros. E, ainda 180 mil assalariados rurais e um grande contingente chacareiro que produz e abastece os grandes centros urbanos com a produção de hortifrutigranjeiros. Apenas 30 mil produtores rurais com área acima de 4 módulos fiscais. Portanto, Goiás tem hoje no meio rural a media de 1.5 milhões de pessoas que movimentam a produção agropecuária no Estado.

Dos 500 mil Agricultores Familiares, 30 mil acessaram 420 milhões de reais do Pronaf através do Banco do Brasil (BB), na Safra 2009/2010, mas teriam a capacidade de aplicar em torno de 5 bilhões de reais por safra. Isso, só não acontece hoje, por falta de uma assistência técnica pública, permanente, sistêmica e de qualidade; parte por falta de vontade política dos governantes do Estado de priorizar o desenvolvimento rural sustentável.

Assistência Técnica

A Emater de hoje, de acordo com o quadro abaixo, não consegue atender um 1/6 da demanda do Estado. Com base nas diretrizes do Pnater, seria necessário um técnico para cada 80 famílias, ou seja, sua capacidade hoje atenderia apenas 19.280 famílias, das 120 mil famílias da AF. Dos 420 milhões de reais aplicados na última safra (2009/2010) foram celebrados 30 mil contratos, portanto, 11 mil famílias não foram atendidas pela assistência técnica pública.

GO necessitaria da ampliação do número de Escritórios Locais, para no mínimo, 220 unidades, com a média 6,8 técnicos/as em cada escritório, totalizando no mínimo 1.500 técnicos/as. E para a pesquisa seria necessário, no mínimo, 120 pesquisadores. Mas, qual será o rumo da pesquisa?

O campo de disputa está demarcado, irão disputar a base do movimento sindical e dos movimentos de mobilização social, ou seja, conquistar os agricultores familiares por dentro da máquina oficial do Estado. Para isso, vão utilizar das políticas públicas, para nos momentos apropriados usá-los como massa de manobra e criar os curais eleitorais. É como a história do homem que depena um frango vivo pra depois jogar farelos de milho pra ele o seguir. A estratégia mais recorrente destes poderosos é despolitizar a sociedade e principalmente o público alvo, nesse caso a Agricultura Familiar, aparentando que estão a favor do segmento social ao afirmar e agir como quem tem o poder de dar e/ou retirar uma benesse – iscas para peixes –, ao mesmo tempo em que promove normas, ações, discursos e omissões vão contra a emancipação social do segmento. Asabedoria popular costuma lançar a imagem da ‘raposa cuidando do galinheiro’...

No campo agrário, é comum lidar com a falácia de que há “uma agricultura só”, de que todos são igualmente “produtores”. Não. Há uma “agricultura agrária”, que nos seus processos produtivos há uma reprodução social, que englobam uma multidimensionalidade e diversidade, em cultura, economia, relações sociais, serviços ambientais. Há uma lógica diferenciada. Incorpora mais gente e mais relações entre as “gentes”. Não podemos aceitar a cooptação da retórica que transforma tudo em uma massa de bolo homogênea, para maquiar os passivos e dívidas sociais históricas, a imoral estrutura fundiária, as explorações (inclusive o trabalho escravo ou análogo) e expropriações no campo.

A estratégia conservadora de apropriar de políticas sociais e sócio-econômicas, conquistadas na luta dos movimentos sociais e sindicais, que até então eles se opunham frontalmente e, agora, tomando a frente delas, retirando todo caráter de abertura para fortalecimento das organizações da Agricultura Familiar. E, lançam a retórica de que são mais competentes para executá-las do que essas organizações que construíram essas políticas. A história tem mostrado que é um árduo labor se trabalhar a organização social comunitária e coletiva, fomentar a consciência de classe e solidária para atuação conjunta em torno de um objetivo maior. Reagir a essa estratégia é não permitir o estímulo à desconscientização, desmobilização e egoísmo.

É preciso repensar um novo modelo de Desenvolvimento Rural Sustentável com Gente. Para isso e necessário intervir positivamente nessa conjuntura posta no Estado.

À frente disto, é preciso repensar também a estratégia, elaborar táticas de atuação e mobilização social diante deste quadro. O que se propõe são frentes de contraponto ao atual discurso e buscar evitar a cooptação. Isto demanda articulação dos diversos movimentos, militantes, parlamentares, gestores sensíveis à causa com um espírito de entendimento numa visão maior, de uma causa comum. Caso contrário, se assistirá a um verdadeiro rolo compressor que forçará e assentará o enfraquecimento das organizações e a desigualdade social no meio rural.

O enfrentamento exige que este repensar se dê num panorama para além dos
próximos quatro anos; quatro anos é muito pouco para se traçar um novo horizonte e novos modelos para o Estado. Portanto torna se necessário a tarefa de se traçar imediatamente, mas com visão para além de dez anos, ultrapassando o foco de apenas o mandato atual.

O filósofo da economia Richard H. Tawney apresentou e discutiu uma visão de mundo que ele chamara de “Filosofia do Girino”:

É possível que girinos inteligentes se resignem com a inconveniência de sua posição, ao refletir que, embora a maioria vá viver e morrer como girinos e nada mais, os mais afortunados da espécie um dia perderão seu rabo, distenderão sua boca e estômago, pularão lepidamente para a terra seca e coaxarão discursos para seus ex-amigos sobre as virtudes pelas quais girinos de caráter e capacidade podem ascender à condição de sapos. Essa concepção de sociedade pode ser descrita, talvez, como a Filosofia do Girino, uma vez que o consolo que oferece para os males sociais consiste na declaração que indivíduos excepcionais podem conseguir escapar deles... E que visão da vida humana essa atitude sugere! Como se a oportunidade para ascensão de talentos pudesse ser igualada numa sociedade em que são desiguais as circunstâncias que os cercam desde o nascimento! Como se fosse natural e adequado que a posição da massa da humanidade pudesse ser permanentemente tal que lhe permitisse atingir a civilização escapando dela! Como se o uso mais nobre dos poderes excepcionais fosse bracejar até a praia, sem se deter pelo pensamento nos companheiros que se afogam!
Se não houver um repensar dos atuantes na luta por justiça social, pelos Direitos Humanos, Sociais, Políticos, Econômicos, Civis, Segurança Alimentar e Nutricional, pela Justiça Ambiental e Agrária no meio rural e rururbano, acabará reforçando e legitimando a pregação o discurso posto e aqueles que lhes vendem tal visão para os trabalhadores e trabalhadoras rurais. Ou, pior ainda, por tabela, enviando para eles o recado de que é essa a filosofia que devem abraçar. E eles assimilarão.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

"Nós" versus "Os Outros" ?

É dispensável ilustrarmos as manifestações análogas ao nazismo e neonazismos que assistimos no Brasil na reta final e logo após o término das eleições, disparados tendo como alvo principal o povo nordestino.
Isso extrapola em muito, mas em muito, questões próprias da campanha. E quem não atentar corre o risco de deixar esta quimera crescer para 2012, 2014....

Debatendo maduramente, é óbvio que Serra não iria fazer uma conclamação: "paulistas anti-nordestinos, uni-vos!". Pra quê? Ele usou foi a tática da ditadura, "Brasil, ame-o ou deixe-o" ao inferir que criticar a gestão PSDB é criticar São Paulo.

O que aconteceu em sua campanha foi surfar na onda destes setores, bem como surfou com a TFP, com monarquistas, integralistas, "Tea Party's versão brasileira", xenofobias paulistas, sulistas, do agronegócio, etc. Até o FHC lamentou.

A grande pergunta é: por que estes setores apoiaram o Serra? Eles não "começaram" na campanha, eles já chegaram nela, e tiveram o caminho liberado totalmente para assumir a ponta quando se via que a Dilma ia ganhar no primeiro turno, aí se transformou num "tudo ou nada".

Por que é inimaginável que aquela estudante que começara no Twitter votaria na Dilma?

Por que Soninha Hernandes - ex-esquerda- sempre postava lá "tire o percentual de MG e SP pra ver o qto o Brasil cresceu..."?

Tem a ver com a questão de que não importa se a integração regional se dê com um crescimento da paridade das regiões mais pobres - diga-se de passagem, o crescimento do Nordeste é relativamente auspicioso.

A questão é que isso faz essa categoria se sentir diminuida. É assim em todo o mundo. Regiões mais abastadas não gostam muito de ver equiparação. Consideram que isso é "levantar muros", "jogar um contra o outro". Querem uma "paz" que é uma acomodação com a injustiça. Aí tem os apelos para a "ordem", "paz", "harmonia".

E com todas as contradições, eles enxergam no PT essa imagem, e digo que numa análise realista é até superestimada - de ter prioridade com os mais pobres.

Questões assim a parte, a história mostra que toda integração nacional externa de peso veio após uma integração nacional interna, e que muitas vezes isso levantou conflitos entre aqueles que queriam manter o status quo.

É claro que não dá pra ficar em cima do muro. Alguém tem que tomar uma posição, e dizer se quer mais igualdade regional e individual de renda, oportunidades, ativos, etc. Quem não quer, sempre vai dizer que promover isso é instigar o ódio, a divisão, por que eles odeiam isso. Então tem que peitar.

Errado não é odiar a injustiça, mas camuflar o apego à injustiça dizendo que se deve manter como está, a "paz, ordem e harmonia". Isso é tão velho como a história de todas civilizações. E aqui, podia ser camuflado enqto gente do sul e sudeste produziam artificialmente um sentimento de "piedade" pelos nordestinos, ao ler Raquel de Queiroz depois da janta, não se exigindo deles nada além de um quilo de comida não perecível no Natal pra descargo de consciência.

Assim a mão-de-obra que fazia o que não queríamos fazer não encarecia.
Porque desde o menor até o maior,
todos são gananciosos;
e desde o profeta até o sacerdote,
todos usam a falsidade.
Eles cuidam da ferida do meu povo supercialmente,
dizendo 'paz, paz', quando não há paz.
Jeremias 6.13-14

Alguns setores lamentam dizendo que isso parte de discursos do presidente Lula. Que é ele que insufla os pobres contra os ricos, nas suas falas acerca das “elites”, e assim, gera uma reação.

Mas até que ponto isso não é uma reação também ao típico discurso sistemático que é dirigido contra ele? FHC até os anos 80 também falava das "elites". Claudio Lembro, do DEM, sempre tem apontado o dedo.

Por exemplo, outro dia, estava conversando com um ruralista se queixando do tratamento dispensado a eles, etc. Eu apontei que o plano safra hoje para o grande agronegócio é de 84 bilhões. Ele falou que muito dinheiro vai para a agricultura familiar, que ele acha que isso é discriminação, divisão, etc. Eu apontei que para ela é 16 bilhões, mostrei os dados do censo 2006 que mostra que são muito mais agricultores e propriedades, apesar de uma área menor. Então, se havia favorecimento, havia para os de larga escala. Ele foi levando a fala dele a um ponto que mostrou que o que o desagradava era a diferenciação; ou seja, se fosse tudo igual, para os de menor poder iria menos e não se mostraria a desigualdade, ficaria camuflada. O que o irritava era deixá-la explícita.

Não acho que se deve cair no jogo dos extremistas, no essencialismo e dizendo que “os brancos” são contra os pretos, “os paulistas” são contra os nordestinos. Pois é isso o que querem, que toda a identidade do grupo maior seja identificada com a postura deles, de tal forma que os que não compartilhem sejam “os traidores”.
Mas o que o presidente fala não é neste sentido. É de dar nome aos bois a quem se opõe a qualquer política que parta do princípio de que houvera uma injustiça histórica a ser reparada.

Desde os tempos de sindicato, ele trabalhava no sentido de desconstruir os apelos retóricos de que os trabalhadores deveriam odiar os patrões. Acho que muitos hoje têm tentado imputar este estereótipo nele justamente para que se identifique políticas afirmativas com isto: insuflar ódio.
O Brasil cresceu para todos, não para poucos. E todos se beneficiam quando mais mulheres, negros, nordestinos, conseguem avançar. No ministério que eu trabalho mesmo, muito das políticas ao longo destes anos tiveram o sul como o maior beneficiário, grande parte mérito deles por estarem mais organizados para se apropriar, embora isto também tenha causas estruturais históricas que ultrapassam o controle do indivíduo comum.

Ele realmente ataca “as elites”. Mas não são essas as que orquestram sistematicamente contra este projeto, reverberando na imprensa, através de seus articulistas, etc.? A elite no caso não é necessariamente todos os que estão em posição melhor, nem os mais dedicados a algo; mas aqueles que se arvoraram no status quo e se organizam contra tudo o que mexa com ele. É o que Raymundo Faoro apontou tecnicamente em “Os Donos do Poder”.

domingo, 17 de outubro de 2010

A megalomania de José Bush

Nos últimos dias, as ações ligadas ao petróleo em Nova Iorque subiram; derivadas tanto das ações do FED quanto dos dados do banco Wells Fargo e da queda de pedidos de auxílio-desemprego nos EUA; daí, as ações da Petrobrás acompanharam, logicamente.

Mas segundo José Bush, isso é "tititi". Foi ELE, com sua egolatria, que fez as ações de Nova Iorque subirem. Se ELE tivesse lançado sua candidatura anos atrás, não teria havido a crise mundial.

domingo, 10 de outubro de 2010

Hipocrisia neomacarthista dos José's Bush

A grande hipocrisia e desfaçatez ainda não desmontada  é o discurso acerca da política de relações do Brasil com o Irã. Vemos arroubos espasmódicos de diversas frentes apresentando pontos débeis que não resistem ao crivo simples.




  1. Possível "namoro" com Mahmoud Ahmadinejad 
Hipocrisia: não há "namoro", nem alguém morrendo de amores ou se identificando com ele. Ele é o chefe de Estado do Irã. O 6º presidente, e como tal, é o que representa seu país e é com quem qualquer um que não rompa relações diplomáticas com o Irã é com ele que deve se relacionar. E ninguém dos hipócritas propôs rompimento de relações diplomáticas, que é o que deveriam propor se fossem mesmo sinceros. Em 2008 as exportações brasileiras para o Irã foram de US$ 1.100.000.000,00, e as importações, US$14,7 milhões, ou seja, o Brasil exporta 76 vezes mais o valor do que importa de lá. Há potencial de que o comércio aumente em breve para cinco vezes mais.

  •   O Irã é uma tirania. 
Hipocrisia: Lá, mal, mal, há eleições. Pelo menos há algo para contestar. A Arábia Saudita, que ninguém ataca e muitas vezes nossa imprensa elogia o rei Abdulah, perdulário ostensivo, nem isso tem; não tem  partidos políticos, nem eleições para presidente, e as eleições municipais começaram em 2005 com fraudes. As eleições no Afeganistão do Hamid Karzai foram respaldadas pelos EUA com fraude e tudo. As eleições de George Bush - que tem inspirado José Bush - foram fraude e permaneceram. A Arábia, país que nem divulga seu coeficiente de Gini, que mede a desigualdade social, tem pena de morte para mulheres acusadas de adultério - sendo que em 2008 aplicaram à Fawza Falih sob acusação de "bruxaria" - e pena de morte para homossexuais. Ninguém fala nada.

  • Mahmoud Ahmadinejad nega o holocausto
Inegavelmente condenável. Mas assim como a Turquia negar o holocausto armênio. E ninguém dos macarthistas aqui chia. Só porque os armênios não têm tantos recursos para bancar superproduções cinematográficas para contar sua história? Não é errado os judeus fazerem isso, devem sempre trazer à tona o crime histórico. Mas o que não podemos é invizibilizar outros, e nem ter dois pesos e duas medidas. 

  • Ahmadinejad quer apagar Israel do mapa.
Bobagem; isso é retórica populista dele. Israel muitas vezes deu sinal de quase apagar os palestinos do mapa e foi ela que já sinalizara muitas vezes a vontade de atacar o Irã. Além do mais, porque Indonésia e Paquistão não se apagaram do mapa, sendo que ambos igualmente são hostis?

  • O Irã quer fazer bomba nuclear
Sabe-se? Os EUA, depois das bombas nuclerares do Iraque que nunca existiram, não têm muita credibilidade. E porque nossos Josés Bush não protestam abertamente contra o arsenal nuclear dos EUA, França, Israel, Inglaterra, Índia? Não falamos da Arábia - da família de Osama Bin Laden - e seu "humanismo"? Pois então, os EUA estão para vender a ela US$ 60 bilhões em armamento pesado, helicópteros de ataque Apache, helicópteros de assalto Black Hawk e caças F-15. Será a maior venda de armas da história, que tem oferta expandida para os Emirados Árabes. Cadê nossos Josés Bush chiando?
Ademais, o que vai se querer se eles não engendrarem alternativas energéticas e tecnológicas [ leia aqui "ciência no Irã, e verão que ali não é uma caverna de Neandertais como os macarthistas pintam], que o povo Iraniano - se esquecem deles - dependa para sempre do petróleo, até quando este não der mais para sustentá-los? E então, o que se propõe? Suicídio coletivo?




A última hipocrisia: os mesmos grupos que reclamam de "direitos humanos no Irã", são os mesmos aqui no Brasil que pregam que direitos humanos é frescura, feita para defender bandido. Como podem então ter moral para querer tirar o cisco dos outros, eles que não tiram as traves de seus olhos?

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

DEMofobia

O que é demofobia?

Pode ser algo similar ao transtorno agorafóbico: medo das multidões.

E significa também esnobismo, aversão a povo, como etimologicamente Demo = povo; fobia = medo, asco, aversão.

Tem gente que justifica a demofobia buscando igualar o popular com o vulgar: "não tenho a menor identificação com as escolhas populares, a começar pelos gostos culturais, culinários, esportivos e principalmente politicos." 


Isso é como o caso do racista que diz que é assim porque não quer usar cabelo cacheado, roupa africana nem batuque; ou do homofóbico que se justifica dizendo que não gosta de roupa rosa, etc. Sem contar que é interessante a gente ver como os jogos de poderes se manifestam: se nivela o “popular” com o “vulgar”, e esquece que o “vulgar” está presente, com maqueações de sofisticação, entre a classe média-alta; o caipira vira “sertanejo , mas sertanejo universitário, sou xiq”. O batidão sujo é sofisticado porque é com Mc Marlboro na extra-vip da boate descolada, lá não entra quem dá impressão de ser pobre, "quê isso, tem que ter classe".

Indíviduos com boa capacidade de executar tarefas e verdadeiro pavor a tomar de decisão, assumir responsabilidades, criar algo novo e ter uma iniciativa autônoma e perspicaz é algo que se constata em todas classes e níveis de escolaridade.

O político que não é demagogo é aquele que está ao lado e dialoga com movimentos de lutas populares, independente de ser época de eleição, e não aquele que os persegue, espanca, e na eleição vira “bom pro povo”.

Quem tem jeito de povo, na vida comum, tem que ter uma associação pejorativa, para a gente se sentir superior. Carregar uma geladeira de isopor? Que coisa de povo. Comer e beber coisas que gente comum come? Aaaargh! Se fosse só o cafezin da hora da eleição...Ah, pior, não olhar o povo de baixo pra cima, mas reconhecer que viveu como um deles? Credo!

O político que não é demagogo, mas popular, não é o apenas o “homem das obras”, como são os demagogos, mas aquele que prova que para crescer o bolo não precisa postergar a distribuição. Que prega democracia aqui dentro e nas relações entre Estados, e não foi um cagão com os ricos e machão com os pobres.
A outra opção é algo como aquela diplomacia tipo cafajeste, que o cara é um bunda mole no serviço, puxa-saco, e em tudo mais fora, e chega em casa é o valentão com a família e com os vizinhos e moradores de rua. Assim, era antes, as relações internacionais sendo "ser machão" com os países periféricos e cagão com os países ricos. Não é porque algo vai contra a demofobia que se pode fazer o truque retórico de dizer que é demagogia.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Malafaia, o "Grande Irmão"

Aproveito para divulgar o explêndido texto que meu xará e amigo destrincha e disseca a hipocrisia amalucada e irracional do comunicador de massas Silas Malafia, em mais uma investida sua para transformar o Brasil num gueto subcultural reproduzindo esquizitices do sul estadunidense, para quem sabe criar Thimothy's McVeigh's aqui.

Bom apetite!

http://filosofiadabatata.blogspot.com/2010/09/saudades-do-bigode.html?spref=tw